O que a termografia enxerga
Toda conexão elétrica tem uma resistência. Quando ela aumenta, por aperto frouxo, oxidação ou contato sujo, a corrente que passa gera calor naquele ponto. E gera muito: o aquecimento cresce com o quadrado da corrente. Dobrou a corrente, quadruplicou o calor.
A câmera termográfica capta a radiação infravermelha e transforma isso em imagem. O defeito aparece como um ponto mais quente que o resto, semanas ou meses antes de virar queima de componente, desarme ou incêndio no painel.
- Conexões frouxas ou oxidadas em barramentos, bornes e cabos
- Disjuntores, fusíveis e contatores com mau contato
- Cabos e barramentos sobrecarregados
- Desequilíbrio de carga entre as fases
- Aquecimento em buchas, chaves seccionadoras e transformadores
- Capacitores e emendas aquecendo acima dos componentes equivalentes
E o que ela não enxerga
Essa parte quase nunca está escrita nos laudos, e devia estar. A câmera lê a temperatura da superfície que ela consegue ver. Defeito que não chega a aquecer a superfície, ou que está dentro de um invólucro fechado, não aparece.
Por isso a termografia não substitui os outros ensaios: isolação de cabo de média tensão com envelhecimento se diagnostica com ensaio VLF e tangente delta; contato interno de disjuntor se mede com micro-ohmímetro; isolamento de transformador, com os ensaios elétricos da parada. A termografia é o exame que encontra o problema com a fábrica funcionando, não o exame que encontra tudo.
A regra número um: tem que ter carga
Inspeção termográfica em instalação desligada não serve para nada, e em instalação com pouca carga engana. Como o aquecimento depende do quadrado da corrente, um defeito sério pode passar despercebido se a planta estiver operando em marcha lenta no dia da medição.
Daí vem uma exigência simples e decisiva: o laudo precisa registrar a condição de carga de cada circuito no momento da medição. Sem esse dado, o número medido não pode ser comparado com o da próxima inspeção nem com o de um componente equivalente. Se o seu laudo não traz a carga, ele não é comparável.
Como um ponto quente é avaliado: diferença, não temperatura
O erro mais comum de quem lê um laudo é olhar só a temperatura absoluta. Um barramento a 60 °C pode estar perfeito num dia quente de Goiás com a planta a plena carga, e um borne a 45 °C pode ser defeito grave se o borne da fase ao lado, com a mesma corrente, está a 30 °C.
O que vale é a comparação, e ela vem de duas formas: a diferença para um componente equivalente na mesma condição de carga, e a diferença para a temperatura ambiente. A metodologia dessa avaliação está na ABNT NBR 15866.
Além disso, a medição depende de parâmetros que o termografista precisa ajustar na câmera e informar no relatório: a emissividade do material, a temperatura aparente refletida, a distância e as condições do ambiente. Cobre polido, barramento pintado e plástico do disjuntor têm emissividades diferentes, e a mesma temperatura real aparece com números diferentes na tela se esse ajuste não for feito.
O que precisa constar no laudo termográfico
Esta é a lista que usamos nos laudos da Aimer, que saem com ART, com a imagem térmica e a foto visual de cada ponto e com a prioridade de correção:
- Identificação da empresa, da planta e de cada equipamento ou painel inspecionado
- Imagem térmica e foto visual do mesmo ponto, lado a lado
- Temperatura do ponto quente e do componente de referência usado na comparação
- A diferença de temperatura entre os dois e em relação ao ambiente
- Condição de carga do circuito no momento da medição
- Emissividade e temperatura aparente refletida adotadas
- Condições do ambiente: temperatura, e se há sol, vento ou chuva na área
- Câmera usada, com número de série e situação da calibração
- Classificação de prioridade de cada anomalia e o prazo sugerido de correção
- Recomendação do que fazer em cada ponto
- Data da próxima inspeção
- ART do responsável técnico
De quanto em quanto tempo refazer
A ABNT NBR 15763 trata justamente disso: critérios para definir a periodicidade da inspeção termográfica em sistemas elétricos de potência. Ela não crava um número único para toda instalação, porque o intervalo depende da importância do sistema, do histórico de falhas e das condições do ambiente.
Na prática do mercado, o intervalo é anual para a maioria das indústrias e semestral em sistemas críticos, ambiente agressivo ou planta que não pode parar. Fora do calendário, a inspeção se justifica depois de ampliação de carga, depois de intervenção em painel e sempre para confirmar uma correção feita.
Vale lembrar também que, pela NR-10, o conjunto de relatórios e medições das instalações elétricas faz parte do prontuário, que precisa estar atualizado. Em estabelecimentos com carga instalada acima de 75 kW, o prontuário é obrigatório.
As normas que valem hoje
Esse é um ponto em que muito laudo está desatualizado: quatro normas de termografia foram canceladas pela ABNT e incorporadas à NBR 16969. Se o seu relatório cita a NBR 16292 ou a NBR 15718, ele está citando norma que não existe mais.
| Norma | Do que trata | Situação |
|---|---|---|
| NBR 15424 | Terminologia da termografia | Vigente, de 2022 |
| NBR 15572 | Guia para inspeção de equipamentos elétricos e mecânicos | Vigente, de 2013 |
| NBR 15763 | Critérios de periodicidade da inspeção em sistemas elétricos | Vigente, de 2009 |
| NBR 15866 | Avaliação da temperatura de trabalho dos equipamentos | Vigente, de 2010 |
| NBR 16818 | Procedimento para inspeções e ensaios termográficos | Vigente, de 2020 |
| NBR 16969 | Princípios gerais da termografia infravermelha | Vigente, de 2021 |
| NBR 15718, 16292, 16485 e 16554 | Verificação de termovisores, temperatura refletida, emissividade e transmitância | Canceladas, absorvidas pela NBR 16969 |
| NR-10 | Segurança nas instalações elétricas e prontuário | Vigente |
Segurança: o painel vai ser aberto energizado
Para a câmera enxergar as conexões, quase sempre é preciso abrir o painel com a instalação energizada e com carga. É o momento de maior risco do serviço, porque expõe a equipe ao arco elétrico.
Por isso a inspeção segue a NR-10: profissional autorizado, análise de risco, distâncias de segurança e vestimenta adequada ao nível de energia incidente da instalação, que sai do estudo de arc flash. Quem faz o serviço sem isso está economizando no lugar errado.
Uma alternativa que vale considerar em painéis críticos é a janela de inspeção infravermelha, instalada na porta do painel: a câmera enxerga por ela e a inspeção passa a ser feita sem abrir o painel energizado.
Na prática: subestação de 69 kV em Godofredo Viana (MA)
As fotos deste artigo são de uma inspeção termográfica feita pela equipe da Aimer em uma subestação de 69 kV em Godofredo Viana (MA), dentro de uma manutenção preventiva que incluiu também os ensaios elétricos dos equipamentos.
Em subestação ao tempo, a inspeção não é dentro de painel: a câmera varre os equipamentos do pátio — buchas, transformadores de corrente e de potencial, chaves seccionadoras e as conexões dos barramentos — com a instalação energizada, do solo e à distância, sem contato com nada.
O ganho é o mesmo do painel industrial, só que a conta é maior: uma conexão que começa a aquecer em uma subestação de entrada não desliga um circuito, desliga a planta inteira.
Erros que invalidam um laudo termográfico
- Medição feita com a planta parada ou com carga muito baixa, sem isso estar registrado
- Só a temperatura absoluta do ponto, sem comparação com componente equivalente
- Imagem térmica sem a foto visual correspondente, o que impede identificar o componente
- Emissividade e temperatura refletida não informadas
- Nenhuma classificação de prioridade: uma lista de pontos quentes não é um laudo
- Citação de normas canceladas
- Laudo sem ART
Depois do laudo: corrigir e medir de novo
O laudo termina com a lista de pontos por prioridade. A correção normalmente acontece em parada programada: reaperto com torquímetro no valor do fabricante, limpeza ou troca do componente, e redistribuição de carga quando o problema é desequilíbrio entre fases.
O passo que mais se esquece é o último: refazer a termografia do ponto corrigido, com carga, para confirmar que o aquecimento acabou. Reaperto malfeito esquenta de novo, e sem a segunda medição ninguém fica sabendo.
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